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O Dia em que um Algoritmo e um Bisturi Disputaram Minha Vida!

  • Foto do escritor: Bruno Monte
    Bruno Monte
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura
Coágulos

O peso do silêncio e o medo do custo


Miami, 23 de dezembro.O sol da Flórida fazia o que sempre faz: brilhava com indiferença. Do lado de fora, tudo parecia em ordem. Dentro de mim, algo entrava em colapso.


A dor começou discreta, quase educada. Uma fisgada na panturrilha, dessas que se atribui ao cansaço de uma viagem longa. Mas ela subiu. Subiu com método, como quem sabe exatamente onde quer chegar. Em poucos minutos, estava instalada no peito — pesada, invasiva, sufocante.


Subir uma escada virou um ato épico. Cada degrau exigia uma negociação silenciosa com o corpo. A tontura vinha em ondas, o campo de visão estreitava, e o ar parecia insuficiente. Ainda assim, resisti.


Não por coragem.Por medo.


Medo de hospitais. Medo de diagnósticos. Medo, sobretudo, do custo invisível e concreto de uma emergência médica em dólar. Como muitos homens, líderes e provedores, eu caía na armadilha da invencibilidade funcional: aguentar mais um pouco, não dramatizar, não parar.


Enquanto eu calculava mentalmente quanto custaria uma consulta, meu corpo calculava algo bem mais simples: quanto tempo ainda tinha.


Quando a tecnologia rompe a negação


Com as mãos já trêmulas, sentei-me. Abri o celular. Não procurei um médico. Procurei uma validação para continuar negando.


Abri o Gemini.


Não buscava um diagnóstico definitivo. Buscava, no fundo, uma justificativa para não agir. Digitei os sintomas com frieza técnica: inchaço progressivo, falta de ar súbita, dor torácica, sensação de desmaio.


A resposta não veio como um texto neutro ou estatístico. Veio como um choque de realidade. Um alerta direto, sem rodeios, quase desconfortável:


“Risco iminente de Embolia Pulmonar. Procure atendimento de emergência imediatamente.”


Ali, algo se rompeu.Não foi a confiança na tecnologia. Foi a minha negação.


O algoritmo não me tranquilizou. Não me ofereceu alternativas brandas. Ele fez o que eu não estava conseguindo fazer: nomeou o perigo. Naquele instante, não era uma ferramenta de busca. Era um espelho brutalmente honesto.


Pela primeira vez naquela manhã, eu não pensei em dinheiro. Pensei no tempo que estava desperdiçando.


Entendendo o inimigo invisível


Para compreender o que aconteceu depois, é preciso entender o que estava acontecendo dentro de mim.


A Embolia Pulmonar não é um evento explosivo. Ela é silenciosa. Começa longe do pulmão, geralmente nas veias profundas das pernas. Longos períodos de imobilidade — como voos internacionais — somados à desidratação criam o cenário perfeito. O sangue desacelera. Estagna. Coagula.


O verdadeiro perigo surge quando esse coágulo se solta.


Ele viaja pela corrente sanguínea, atravessa o coração e se aloja nas artérias pulmonares. É como se o principal cano de oxigênio do corpo fosse abruptamente bloqueado. O pulmão deixa de trocar gases. O oxigênio no sangue despenca. O coração, em desespero, tenta compensar.


No meu caso, os médicos foram claros depois:eu tinha menos de 24 horas antes de uma falência cardíaca.


A precisão que devolve o fôlego


Embolia Pulmonar

No HCA Florida Aventura Hospital, não houve pânico. Houve foco.


Os médicos não viram apenas um caso clínico. Viram urgência. Viram risco real. Viram alguém que precisava de decisão rápida e precisão máxima.


Trombose

Fui submetido a uma trombectomia de emergência com o sistema Inari. O procedimento, embora altamente tecnológico, tem algo de quase poético na sua lógica: remover, fisicamente, o que impede a vida de fluir.


Um cateter percorre o sistema venoso até o local do bloqueio. Sem dissolver, sem esperar. Ele aspira. Retira. Libera.


Não houve espetáculo. Houve eficiência.Não houve heroísmo. Houve competência.

Quando os coágulos foram removidos, algo simples aconteceu: o oxigênio voltou a circular. O corpo, que estava em modo de sobrevivência, recebeu permissão para viver.


Quando o Ano Quase Terminou — e a Vida Recomeçou


A cirurgia aconteceu no dia 30 de dezembro, às 17 horas.


Enquanto a maioria das pessoas estava preocupada com retrospectivas, listas de resoluções e o cardápio da virada, eu estava em uma sala cirúrgica, com o peito aberto à possibilidade mais simples e mais radical de todas: continuar vivo.


O tempo, ali, tinha outra densidade.Cada minuto não era uma unidade de relógio — era uma concessão.


As horas seguintes passaram como passam os momentos decisivos: silenciosas, técnicas, exatas. O corpo respondeu. O pulmão voltou a funcionar. O coração desacelerou, como se finalmente tivesse recebido permissão para descansar.


Na noite do dia 31 de dezembro, por volta das 20 horas, veio a frase que raramente carrega tanto significado:


“Você está de alta.”


Faltavam poucas horas para o ano novo.


Saí do hospital não como quem recebe um favor, mas como quem recebe um presente que não pode ser desperdiçado. Não houve euforia. Houve uma gratidão silenciosa, quase reverente.


Enquanto o mundo se preparava para contar regressivamente os segundos, eu atravessava portas automáticas com uma certeza inédita: o ano não estava apenas acabando — ele estava me devolvendo àquilo que realmente importa.


Passei a virada ao lado da minha família.


Não como um símbolo.Como um fato.


Sem discursos grandiosos, sem promessas vazias. Apenas presença. Respiração. Olhos atentos. O tipo de riqueza que não aparece em balanços, mas sustenta toda a estrutura.

Naquele momento, o calendário virou.E comigo, virou algo muito mais profundo.


O que fica subentendido


Há histórias que não pedem lições explícitas. Pedem leitura atenta.


Em poucos dias, experimentei duas faces da tecnologia contemporânea: uma digital, outra médica. Em comum, algo raro — a capacidade de agir com precisão quando o humano ainda está em negação.


Não houve discurso. Não houve promessa.Houve resposta no momento certo.


Talvez seja isso que diferencia sistemas eficientes de sistemas verdadeiramente relevantes. Não a sofisticação do discurso, mas a sensibilidade ao contexto humano. Entender que, por trás de cada dado, existe alguém tentando ganhar tempo — às vezes, literalmente.


Algumas experiências não servem para ensinar.Servem para revelar possibilidades.

E algumas conexões só fazem sentido depois que a vida é devolvida ao fluxo normal.


Agora é minha hora de para, repensar, reestruturar e alinhar minha VIDA para o FUTURO que desejo. Você faça o mesmo! Abraço.

 
 
 
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